Carnaval é alegria, “chuva, suor e cerveja”.
Mas para quem está em cima do trio, carnaval também
é trabalho, esforço e preparação.
Por isso, há 10 anos, o cantor Tonho Matéria
procurou a fonoaudióloga Valéria Leal para aprender
como maximizar o uso de sua voz, obtendo maior rendimento,
sem prejudicar as cordas vocais – ou pelo menos, não
fazer esforço desnecessário. No então
carnaval de 1995, Tonho já cantava em cima do trio
elétrico, no Bloco Tiete Vips, com sua voz potente
e timbre especial. Ele, que já cantou no Ara Ketu e
atualmente canta na banda Olodum, além de ser um grande
compositor (ver quadro),
percebeu que a sua saúde vocal era um fator importante
para a sua profissão, tendo em vista a responsabilidade
que sempre teve com seu trabalho.
Características
observadas enquanto Tonho cantava, como performance, postura,
ressonância, apoio respiratório no canto e a
emoção – além de seus hábitos
e a forma em que usava a voz – foram acompanhadas por
Valéria no trio elétrico, o “palco móvel”
criado por Dodô e Osmar. Esse acompanhamento in loco,
no ambiente real do cantor, tinha o objetivo de alcançar
uma melhor percepção, para que os aspectos citados
fossem vistos com maior fidelidade. Assim, no mesmo carnaval
de 1995, Valéria acompanhou o percurso do Bloco Tiete
Vips, em cima do trio. Durante as 9 horas consecutivas de
desfile, praticamente sem intervalos para repouso, ela pôde
observar o clima de grande euforia e as características
do canto de Tonho Matéria.
Antes
de se apresentar, Tonho havia passado por treinamento e preparação
vocal, em que o seu suporte respiratório e o apoio
do diafragma – durante a emissão de voz falada
e cantada – foram trabalhados exaustivamente, assim
como a sua postura cervical e ressonância. Como é
mestre de capoeira, Tonho sempre teve um bom condicionamento
físico, que já previa o alongamento do corpo,
o ritmo e a flexibilidade que são importantes para
o momento da apresentação.
Mesmo
assim, para a então surpresa de Valéria, Tonho
ainda possuía voz de qualidade mesmo diante de todas
as dificuldades naturais que, assim como os outros cantores
de trio, enfrentava após a “maratona vocal”
a que era submetido. O carnaval baiano, considerado pelo Guiness
Book o “maior carnaval de rua do mundo”, é
marcado por dois circuitos principais – Avenida e Barra/Ondina
– que apresentam de 4 a 6 km, em que os cantores cantam
e dançam, animando o público sem parar, com
esforço digno de maratonistas. A partir de então,
Valéria passou a olhar Tonho e os demais cantores de
trio com admiração, pela capacidade de levar
o canto por tão longo período, com energia,
alegria e grande disposição física, mesmo
diante do inerente desgaste, cansaço físico
e vocal.
E como
dizia Osmar Macedo, criador do trio elétrico juntamente
com Dodô, “uma vez subido no trio, se adquire
um ‘micróbio de trio’, que faz com que
o encantamento das massas traga o retorno a este em algum
momento”. Com Valéria, mesmo não sendo
artista de trio, não foi diferente. Ela também
se encantou e passou a se interessar, a partir da experiência
com Tonho Matéria, pelo treinamento, pesquisa e reabilitação,
para o aumento da resistência corporal e vocal, do cantor
de trio.
Esta resistência
é muito importante, já que as dificuldades são
diversas. Em palco móvel, a céu aberto, não
há delimitação de espaço, trazendo
a vulnerabilidade à poeira e à desidratação,
devido ao calor do verão e à fumaça que
sai dos caminhões dos trios. Além disso, o cantor,
instintivamente, procura projetar a sua voz o mais longe possível,
para que toda a gigantesca massa o ouça, mesmo havendo
equipamentos de amplificação da voz e uso de
periféricos com efeitos – para dar corpo, brilho
e penetração. Com as músicas de andamento
rápido, a habilidade e a voz do cantor são extremamente
exigidas e canto e dança conjugado também podem
levar ao limite físico do artista, até mesmo
por maior gasto de energia. Ainda há a valorização
da percussão, que traz a necessidade de corpo, volume
e projeção da voz, para estabelecer o “diálogo
com os tambores”. A voz acompanha o instrumento musical
que, em trio, originalmente era direcionada pela guitarra
baiana, mais leve e melodiosa. Com a amplificação
dos elementos percussivos, a voz precisa de mais corpo, potência
e volume. Este novo timbre do trio traz a necessidade de se
alcançar, com técnica vocal adequada, uma voz
com volume, resistência, potência e projeção,
mais comumente encontrada nas vozes de cantores negros.
Assim,
afora sua importância como artista, Tonho também
teve importância, profissionalmente, para Valéria
Leal, representando o marco zero, o início da grande
jornada em busca de alternativas e da compreensão dos
mecanismos envolvidos na produção da voz cantada.
Esta longa jornada, assim como, os percursos que os cantores
de trio encaram, é extensa, por vezes exaustiva, mas
cheia de alegria e satisfação. Ouvir a voz do
artista envolvendo o povo, que encantado dança, canta,
se energiza, brinca e sorri, justifica o caminho.
A você,
Tonho Matéria, compositor, cantor, capoeirista envolvido
em importante trabalho social, esta pequena homenagem, por
seu carisma, palavra que significa, graça divina e
poder de seduzir, encantar e despertar de imediato a aprovação
e a simpatia das massas.